quarta-feira, 16 de julho de 2008

O Ateneu - (Raul Pompéia) - resumo



PERSONAGENS:

Sérgio – protagonista e narrador;

Aristarco – diretor do colégio (internato). É autoritário, egocêntrico e moralista;

Franco – sempre fora a vítima das brincadeiras de mau gosto dos outros;

Bento Alves – o misterioso e protetor;

Rabelo – o conselheiro;

Sanches - amigo, colega da classe.

Ema – mulher de Aristarco, substitui a mãe de todos os alunos;

Tendo por cenário um internato e por protagonizar um menino de onze anos, Sérgio, O Ateneu é tematizado pelo drama da solidão, do desajuste do indivíduo em relação ao meio.
A história é narrada em primeira pessoa pelo personagem principal, Sérgio, já adulto. Não linearmente, ele mostra os dois anos em que viveu no internato que fora obrigado a ir pelo seu pai, e que servia de metáfora para a Monarquia o qual tinha como diretor Aristarco. São narrados episódios de suas amizades, seus colegas interferindo com ele, a tensão homossexual entre os alunos do internato, a falsidade de uns, a deformação de caráter de outros e a única pessoa que lhes ajudava no internato, Dona Ema, mulher de Aristarco, por quem tinha uma paixão platônica.
Essa reconstituição compreende uma descrição expressionista de pessoas e ambientes em que o narrador desnuda cruelmente os colegas, como por exemplo, Ribas, que canta como anjos, Franco, o eterno penitente, Barreto, um colega para quem o mal eram as fêmeas e que se aproxima de Sérgio com suas idéias obre inferno e perdição, os professores e o diretor, reduzindo-os a caricaturas grotescas, nas quais se percebe a intenção de deformar, como se Sérgio estivesse vingando-se do seu passado e de todos que faziam parte do Ateneu.
Quando a escola é incendiada no final da história por um aluno durante as férias, Ema foge. Sérgio presencia a cena pois estava convalescendo ainda na escola. Essa obra foi chamada pelo autor de “Crônica de Saudades” e ultrapassa a dimensão autobiográfica por causa de sua qualidade literária.

O Ateneu, Crônica de Saudades, estrutura-se através de “manchas de recordação”, ou seja, de uma sucessão de episódios, cujo fio condutor é a memória do personagem-narrador. Não há propriamente um enredo. Relatamos, a seguir alguns episódios:
Com onze anos, o menino Sérgio (que narra a história em primeira pessoa) entra para o “Ateneu”, famoso colégio interno dirigido pelo Dr. Aristarco Argolô de Ramos. Principia falando de Aristarco:
“um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha; a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a influência dos estudantes ricos para seu instituto. De fato, os educandos do “Ateneu” “significavam a fina flor da mocidade brasileira”.
O pai de Sérgio, ao deixá-lo à porta do “Ateneu”, disse-lhe:
“Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta”.
E o narrador acrescenta:
“Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico...”
Sobre os companheiros de classe, diz:
“eram cerca de vinte: uma variedade de tipos que me divertia: o Gualtério, o Nascimento, o Álvares, o Mânlio, o Almeidinha, o Mauríllio, o Negrão, o Batista Carlos, o Cruz, o Sanches e o resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo de sala.”
Nos primeiros dias, Sérgio atravessa por um período de ajustamento, e conversando com o Rebelo, um veterano, este assim opina sobre os companheiros:
“Têm mais pecados na consciência que um confessor no ouvido, uma mentira em cada dente, um vicio em cada polegada de pele. Fiem-se neles... São servis, traidores, brutais, adulões. Fuja deles, fuja deles. Cheiram a corrupção, emprestam de longe. Corja de hipócritas! Imorais! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da véspera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com eles mesmos há de aprender o que são... Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da franqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiros e afetuosos, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo. Comece por não admitir protetores.”
Após a fase inicial de ajustamento, Sérgio vai-se habituando à vida do internato. Interessa-se pelos estudos, graças à ajuda de Sanches. Mas o Sanches estava mal intencionado: seu plano era perverter Sérgio. E, como não consegue, passa a persegui-lo, como “vigilante” que era. O resultado é que Sérgio, de bom aluno, passa a figurar no “livro de notas”, um trágico livro em que cada professor anotava as supostas indisciplinas e que o diretor lia todos os dias perante os alunos para isso reunidos, tornando públicas as atitudes faltosas, as quais eram castigadas rigorosamente. Sérgio entra em perigosa fase de desânimo, tornando-se religioso. Nessa fase tem amizade com Franco, um pobre-diabo que vivia desprezado por todos, o figurava permanentemente no “livro de notas”. Certa vez, Franco para vingar-se dos colegas que haviam maltratado, joga cacos de vidro na piscina. (Sérgio ajuda nesta tarefa.). Felizmente as intenções maldosas de Franco são por acaso frustradas, pois houve a limpeza da piscina antes que os alunos banhassem; mas o episódio fez com que Sérgio, arrependido, deixasse a fase de “misticismo” e passasse a encarar a vida de outra maneira: conta a seu pai o que realmente era o “Ateneu” e resolve, daí por diante, tomar atitudes de pessoa independente, enfrentando inclusive a autoridade despótica e interesseira de Aristarco.
E o narrador: “esse foi o caráter que mantive, depois de tão várias oscilações.”
Nesta altura, introduz novo personagem: O Nearco, um ginasta de grande valor, que acabara de entrar para o “Ateneu”. Embora excelente nos exercícios de ginástica, foi como orador do grêmio literário do colégio que Nearco se destacou. Às reuniões desse órgão estudantil, chamado “Grêmio Amor ao Saber”, Sérgio comparecia como simples assistente. Como o grêmio possuía farta biblioteca, Sérgio começa a freqüentá-la, então que se deu um fato estranho: Freqüentando a biblioteca, Sérgio travou amizade com o Bento Alves, um aluno mais velho que trabalhava como bibliotecário. Uma amizade que logo degenerou, por força das más intenções do Bento Alves. Logo os colegas começaram a dizer piadas e a fazer comentários:
“A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represália do Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicência, digna deles”.
Certo dia, o diretor se dirigiu aos alunos:
“Tenho a alma triste, senhores. A imoralidade entrou nessa casa! Recusei-me a dar crédito, rendi-me à evidência...”.
Narra então, o diretor, um caso de “amor” entre dois alunos, inclusive faz referência a uma carta de “amor” em que um dos protagonistas convida o outro para um encontro no jardim e assina: Cândida ( o aluno se chamava Cândido)... E o diretor termina a primeira parte do discurso com a frase:
“Há mulheres no “Ateneu”, meus senhores.”
E o desfecho acontece:
“Aristarco soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com um bafejo todo poderoso. E, sem exórdio: Levante-se Sr. Cândido Lima! Apresento-lhes, meus senhores, a Sra. Dona Cândida – acrescentou com ironia desanimada. Para o meio da casa! Curve-se diante dos seus colegas. Cândido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e maneiras difíceis de indolência e enfado. Atravessou devagar a sala, dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela curiosidade pública. –Levanto-se, Sr. Emílio Tourinho... Este é o cúmplice, meus senhores. Tourinho era um pouco mais velho que o outro, porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã, mas era com efeito o amante. –Venha ajoelhar-se com o companheiro. –Agora os auxiliares. E o chamado do diretor, foram deixando os lugares e postando-se de joelhos em seguimento dos principais culpados. Prostrados os doze rapazes perante Aristarco, na passagem alongada entre as cabeceiras das mesas, parecia aquilo em ritual desconhecido de noivado à espera da bênção para o casal frente. Em vez de bênção chovia a cólera.”
E prossegue o autor:
“Conduzidos pelos inspetores, saíram os doze como uma leva de convictos para o gabinete do diretor, onde deviam se literalmente seviciados, segundo a praxe da justiça de arbítrio. Consta que houve mesmo pancada de rijo.”
Sérgio teve, após o episódio com Bento Alves, um amigo “verdadeiro”, Egbert.
Tendo sido transferido para o dormitório dos maiores, Sérgio começa a viver em ambiente mais masculino. Narra os hábitos dos mais velhos, as saídas noturnas pelas janelas, etc.
Conta Sérgio o episódio da morte do colega Franco, vítima de péssima educação que havia recebido em casa e igualmente vítima dos maus-tratos sofridos no “Ateneu”.
E termina o livro com o Incêndio que destrói o “Ateneu”, incêndio, ao que se diz, “propositadamente lançado pelo Américo”, um aluno revoltado, que fora colocado à força pelo pai no internato.
Conclui o autor:
“Aqui suspende a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo e a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas.”


(Apostila 19 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)
Texto Completo das obras indicadas para o vestibular da UEPB
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Resumo - O Ateneu - Raul Pompéia

Surgido pela primeira vez em 1888, no Gazeta de Notícias, O Ateneu é um dos romances mais curiosos da Literatura Brasileira, pois escapa a qualquer classificação rígida de periodização literária.A data de sua publicação o coloca no Realismo. De fato, possui fortes afinidades com tal escola, já que apresenta uma característica marcante desse momento estético: a preocupação em criticar a sociedade num tom perpassado de pessimismo. No entanto, há inúmeros desvios que o impedem de ser um romance puramente realista.Em primeiro lugar, deve-se lembrar que a obra é memorialista. Seu narrador, Sérgio, apresenta suas memórias de infância e adolescência num colégio interno chamado Ateneu. Assim, o foco narrativo em primeira pessoa impede a tão valorizada objetividade e imparcialidade do Realismo-Naturalismo.Além disso, não se deve esquecer que Sérgio é o alter-ego, ou seja, um outro “eu” de Raul Pompéia. Em outras palavras, o narrador recebe a personalidade e também as memórias do autor, já que este também estudou num internato, o Colégio Abílio, do Rio de Janeiro. Mais uma vez, carrega-se nas tintas do pessoalismo.Reforça ainda mais essa subjetividade a forte aproximação que O Ateneu estabelece com outra escola literária, o Impressionismo. De fato, obedecendo a esse estilo, não há o relato exato e documental de fatos do passado. Raul Pompéia encaminha-se inúmeras vezes para a fixação de um momento, de um clima, de uma atmosfera perdida no passado. Ao invés de contar uma história, muitas vezes preocupa-se em relatar uma seqüência de impressões, sensações subjetivas que marcaram o narrador a ponto de atravessar o tempo e serem os elementos mais nítidos de sua memória.No entanto, quando se mostra finca nos postulados realistas, o romance mostra um poder de crítica bastante eficaz e tudo de forma criativa, pois se faz por meio de um jogo entre o microcosmo (escola) e o macrocosmo (sociedade). Ou seja, a escola é um reflexo da sociedade, bastando para o autor, portanto, para criticar esta, apenas descrever as relações que se estabelecem naquela.O ataque mais chamativo se estabelece em relação ao sistema educacional, representado na figura do Dr. Aristarco, diretor e dono do colégio. Além de ele se mostrar alguém bastante vaidoso, egocêntrico e autoritário, dotado de uma linguagem altissonante e retórica (já que a moralidade e a firmeza de caráter que anuncia em sua escola de fato não se realizam), chama a atenção a confusão que estabelece entre escola e empresa. Magistral é o primeiro capítulo na realização dessa crítica. Vê-se um narrador que, abusando da ironia, apresenta Aristarco preocupado em pintar o colégio como um negociante preocupado com as aparências de sua venda ou mercearia. Não é à toa que o vocabulário usado nesses trechos é típico de estabelecimentos comerciais. Ademais, o tratamento dado aos alunos é diferenciado muitas vezes pelo poder econômico. Além disso, avassaladora é a descrição do diretor dedicando parte do dia ao livro de contabilidade da escola. Note, por fim, como o vocabulário pomposo e retumbante vai-se opor à decadência que grassa na escola, o que reforça a hipocrisia dominante não só no colégio, mas na sociedade, em que o ideal defendido mostra-se gritantemente diferente do real praticado. Pode-se ainda observar os métodos antiquados de pedagogia (apesar da propaganda em contrário), baseados na humilhação pública.Ainda dentro do Realismo, há que se notar no romance sua vinculação ao Naturalismo (um subconjunto da literatura realista), principalmente na utilização de elementos que denotam um apego exagerado à sexualização. Destaca-se, numa visão que em muito lembra a teoria freudiana, o jogo entre implícito e explícito, declarado e escondido, desejado e reprimido, e principalmente entre masculino e feminino que muitas vezes resvala no homossexualismo. Nos primeiros dias de aula Sérgio recebe de seu colega de sala, Rebelo, o conselho de que não deveria aceitar a proteção de ninguém. É que a escola estava dividida entre os meninos que protegiam, dotados, pois, de masculinidade, e os meninos protegidos, frágeis, passivos e, assim, dotados do que era entendido, no contexto do romance, como feminilidade. Apesar de avisado, o protagonista não consegue manter por muito tempo a sua disposição por se impor no meio estudantil (há aqui um outro elemento realista-naturalista. A escola é apresentada como um meio hostil, em que os estudantes vivem constantes agressões entre si, tudo para a conquista de espaço e respeito. É como se fosse uma representação das forças que dominam em nossa sociedade), buscando logo a cômoda proteção de alguém mais velho. Surge então Sanches. O problema é que esse rapaz, descrito como baboso e fedido, demonstra outras intenções. Se ajuda Sérgio na recuperação de seu desempenho escolar, esmerando-se em aulas particulares, exagera nas demonstrações afetivas, chegando até a pedir que o protagonista sentasse em seu joelho.Não se deve deixar de notar aqui mais uma crítica à hipocrisia. Sancho era um vigilante, aluno que tinha a função de zelar pelo comportamento dos outros. Além disso, era dos mais veementes defensores da “moral e dos bons costumes”. E justamente ele assediava Sérgio, com intenções nada benéficas. É mais um choque que servirá para o duro amadurecimento do protagonista – no sentido de despir-se dos idealismos do primeiro capítulo e aceitar as decepções e desencantos como naturais de nossa existência.Ainda dentro do aspecto freudiano está o complexo de Édipo, apresentado numa forma mascarada. Tal se manifesta pela relação de antipatia que se estabelece entre os alunos do Ateneu e o diretor, que acaba se transformando na figura de um pai. Dessa forma, sua esposa, D. Ema, por ser carinhosa e muito protetora, acaba assumindo a função de mãe dos estudantes. Essa afetividade acaba até se manifestando em Sérgio, principalmente no final do romance, quando, doente, é cuidado por ela.Somando-se aos elementos realistas, naturalistas e impressionistas, chamam a atenção em O Ateneu as recaídas que o autor tem no rebuscamento da linguagem, com subordinação exagerada e inversões desnecessárias, o que lembra um pouco o Parnasianismo. Note como tal se manifesta no texto abaixo, início do capítulo III: Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudência, enquanto aplicavam-se os outros à peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos autobiográficos, para a oportuna confecção de mais uma infância célebre, certo não registraria, entre os meus episódios de predestinado, o caso banal da natação, de conseqüências, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.Ou então na famosa abertura do romance “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso."Não há como não enxergar positivamente a elaboração muitas vezes poética da linguagem no romance, com um intenso emprego de metáforas e outras figuras de linguagem. No entanto, o autor por vezes perde a mão, dificultando desnecessariamente a imediata compreensão do seu conteúdo.Existe também em O Ateneu aspectos do Expressionismo, na medida em que seu traço, principalmente nas descrições, distorce a realidade por meio de caricaturas grotescas, que resvalam pelo exagero. Note como isso se manifesta na descrição que Sérgio faz dos seus colegas de sala. ”Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio — palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; o Álvares, moreno, cenho carregado, cabeleira espessa e intensa de vate de taverna, violento e estúpido, que Mânlio atormentava, designando-o para o mister das plataformas de bonde, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescente (...)”Em suma, a riqueza do estilo de Raul Pompéia, apresentando elementos realistas, naturalistas, parnasianistas, impressionistas e expressionistas, permite com que sua obra O Ateneu fuja a toda e qualquer padronização literária simplista. Torna-se, pois, um dos momentos mais brilhantes da Literatura Brasileira no século XIX. EQUIPE FERANET21
Texto Completo das obras indicadas para o vestibular da UEPB

Resumo - O Vôo Da Guará Vermelha


Autor : Valéria Rezende
Resumo de : Lara Mer
O Vôo da Guará Vermelha traz como personagens centrais Rosálio e Irene. Rosálio é pedreiro, Irene é prostituta. Os dois se encontram quase que por acaso e o que se impõe a parir daí é a beleza como celebram a vida porque o fazem de forma terna, simples e profunda. Rosálio, carrega nas mãos alguns livros, que o acompanham em suas andanças. Rodou o mundo, impulsionado pelo desejo de aprender a ler, a ler os livros que trazia nas mãos. Buscou errante onde parecia óbvio, deu voltas e voltas até que encontrou Irene. Irene viveu no passado, uma história de amor e tragédia. Do amor que prende, que mata que deixa saudade e culpa. Da espera do jovem que promete ir buscá-la. Embaixo de seu colchão de trabalho guarda um caderno em branco e um lápis a espera das palavras que contariam as histórias trazidas por Rosálio. Com Irene, Rosálio aprende a ler da forma mais bela e digna que é aprender ensinando, receber, dando. O livro mostra a imensa capacidade do espírito de extrapolar o mundo físico, ainda que o cenário se descortine em uma realidade material que nega o vôo. Irene vive finalmente o tão sonhado amor nos braços de Rosalvo e parte a suavemente nas asasde um passarinho. Rosálio ao buscar a palavra, busca a sua consciência e ao encontrar as letras com as quais pode ler o seu nome, sai do estado de cinza/inconsciência para a luz que se descortina num arco-íris de cores da consciência. Rosalvo, o contador de histórias, com o seu instrumento de trabalho e vida eterniza a si mesmo assim como o faz a sultana de Mil e Uma Noites.
Comentário : Assessoria de Comunicação e Imprensa – UNICAMP
O Vôo da Guará Vermelha celebra a vida, sem pieguice
O Vôo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende, é um livro sóbrio e envolvente. Um hino à vida, à beleza e ao amor, completamente desprovido da pieguice em que geralmente se banham romances que fazem desas matérias inconsúteis (amor, beleza e vida) a carpintaria da história que contam. Um belo livro! O enredo é simples: um homem e uma mulher se encontram nos extremos da vida e se juntam. Extremos de pobreza, de solidão e de doença, fundidos, se transfiguram. Transfigurados, parecem dar sentido à vida e até à morte. Pois embora celebre a vida, o enredo é entremeado de mortes, de desencontros, de sofrimentos. Seu enredo é entremeado sobretudo de histórias, que se destacam graficamente da fala do narrador, elaborando os entremeios. Nos títulos dos capítulos, engenhosamente dispostos na frente/verso das páginas, mencionam-se cores que se acentuam com o desenrolar da trama e que com ela dialogam: Cinzento e Encarnado, Ocre e Rosa, Verde e Ouro. Pairando na história, sabores e cheiros que arrematam o forte substrato sensorial do texto, onde é recorrente a imagem de um sagüi e de uma guará, lembranças fundamentais na vida das personagens centrais. Ela é Irene, ele é Rosálio da Conceição. Ela é prostituta, ele é servente de pedreiro. As humildes profissões deles, no entanto, são quase irrelevantes. Vivem ambos uma vida cinzenta e áspera como as pedras com que Rosálio marca – no início de sua trajetória – o itinerário pela cidade inóspita, mergulhada num silêncio estéril e letal. A história se narra pela boca de um narrador sofisticado, que ora empresta a voz para suas personagens, ora fala delas em terceira pessoa. Sempre de olho no leitor, a voz que narra não poupa artimanhas para envolver esta instável figura – nós, leitores! – em sua solidariedade para com Irene e Rosálio. Filho de mãe solteira, Rosálio começa por ter de adotar um nome: era conhecido como Nem Ninguém, nome sugestivo da negatividade quase absoluta de sua existência; depois passa a ser Curumim e, finalmente, Rosálio da Conceição na documentação que lhe dá existência civil. Esta invenção de um nome para si mesmo é o primeiro gesto pelo qual Rosálio começa a construir-se como sujeito de sua própria história. Esta história cifra-se em sua incansável busca por alguém que o ensine a ler os livros que herdou do falecido Bugre, índio desgarrado que terminou de criá-lo, depois de ser por ele salvo de morrer de febre, fome e sede. Os caminhos do aprendizado são tortuosos e cheios de curvas: com o protagonista, o leitor perambula por madeireiras, garimpos, canteiros da construção civil. Finalmente Rosálio se encontra com Irene. Irene é uma prostituta barata: doente e envelhecida, mal consegue os clientes necessários para o dinheiro que precisa levar semanalmente para a velha que lhe cria o filho. Embaixo do colchão deformado, um caderno e um lápis aguardam a história que ela acredita que um dia vai escrever. No passado, Romualdo,um grande amor desaparecido. E no futuro muito próximo, a morte inevitável por doença terminal. Finalmente Irene se encontra com Rosálio. Aos poucos, linguagem, escrita, livros, papéis, lápis e histórias de boca e de leitura vão crescendo no enredo, construindo o ponto de encontro dos protagonistas. Daí para frente, multiplicam-se e ficam cada vez mais encorpadas as formas de linguagem de que se valem as personagens. Aliás, a linguagem e os diálogos que ela engendra representam, talvez, a idéia fundadora e a tese do livro, se é que se pode falar de tese a propósito de um livro sutil como O Vôo da Guará Vermelha. Rosálio aprende a ler com Irene e juntos, na cama velha e estreita, decifram as letras dos livros herdados de Bugre. No caderno de Irene, ela registra a lápis as histórias que Rosálio conta. Homem e mulher que se fazem um na linguagem e no texto. No corpo e na cama, na vida e na morte. E que por isso podem alçar vôo para o azul sem fim, bela metáfora-título do último capítulo do livro. O leitor, ao fechar o livro, talvez tenha olhos e ouvidos mais abertos para o mar de histórias que se desentranham da história. No caso deste livro, da história anônima deste País de Rosálios e de Irenes e que um Poetinha, um dia, chamou de Pátria minha, tão pobrinha...Marisa Lajolo é professora titular do Instituto de Estudos da Linguagem (Unicamp) e autora, entre outros títulos, de A Formação da Leitura no Brasil
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Resumo 1 - MORTE E VIDA SEVERINA

(Emília Amaral* )

Contexto histórico cultural

Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o otimismo tomou conta do mundo, e uma nova etapa de desenvolvimento pacífico parecia se aproximar. Os mais céticos, contudo, se lembravam da década de 20, após a Primeira Guerra: as mesmas esperanças tinham surgido, desfeitas pelo conflito de 1939. Assim, não se mostravam tão crédulos quanto à duração da nova era de tranqüilidade que se anunciava.
De fato, após a Segunda Guerra, o cenário político do planeta se modificou. Duas potências surgiram vitoriosas, os Estados Unidos e a União Soviética, destronando do centro decisório antigos ocupantes, como: Inglaterra e França, e aparecendo como os novos donos do mundo. Representantes de regimes sociais e políticos antagônicos, o Capitalismo e o Comunismo, passaram a disputar áreas de influência pelo mundo inteiro. Essa disputa recebeu o nome de Guerra Fria.
As duas superpotências se intrometiam nas lutas internas das regiões disputadas, como Coréia e Vietnã, fornecendo armas a uma das facções, com objetivos políticos. Com isso, essas regiões acabaram se transformando em campos de teste para armas avançadas, produzidas nos grandes centros tecnológicos.
Neste quadro geral, era impossível para qualquer país sustentar uma posição de neutralidade. A desobediência às regras da esfera de influência americano-capitalista, ou russo-comunista levava a punições severas no plano comercial, e mesmo à invasão pura e simples. Esta polarização ideológica impedia o surgimento de qualquer opção política aos modelos já estabelecidos.
Não era estranho ao mundo a coexistência ameaçadora de nações fortes e inimigas. Mas, naquele momento, um dado novo modificava os sentimentos que essa coexistência provocava: a bomba atômica. Laçada pelos americanos pela primeira vez no Japão em 1945, vitimando milhares de pessoas, funcionou como um recado aos planos expansionistas dos russos. Estes logo alcançaram a tecnologia atômica e a guerra nuclear passou a ser uma ameaça bastante palpável. Se acontecesse a terceira guerra mundial, o duvidoso consolo que todos tinham era o de que certamente seria a última.
No plano internacional, o ano de 1945 indicou uma nova era de esperanças, com o fim da Segunda Guerra. Também no Brasil, este ano marcou o término da ditadura de Vargas, abrindo perspectiva para um período democrático na vida política nacional. O fato do presidente eleito no ano seguinte ter sido Eurico Gaspar Dutra, que tinha sido ministro do governo Vargas, mostrou que o ditador deposto não estaria completamente ausente do cenário político.
Esta impressão se comprovou quando, nas eleições seguintes Getúlio concorreu, e ganhou. O ex-ditador voltava ao poder agora eleito democraticamente. A classe média intelectualizada temia um novo golpe de estado como o já penetrado por Vargas em 1937, e alguns de seus setores passaram a criticar as atitudes dúbias do presidente. A frustrada tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda, que fazia oposição aberta ao governo, acabou vitimando um major da Aeronáutica, e o governo se viu na obrigação de apurar os fatos. Todos os indícios levavam ao governo federal, e a pressão para uma renúncia voltou a assombrar a carreira de Getúlio. Em agosto de 1954, Vargas se suicidou.
Apesar do clima tenso que sucedeu ao suicídio, a normalidade democrática acabou por se instalar, e novas eleições foram convocadas. O presidente eleito, Juscelino Kubitschek, apareceu como solução modernizadora para o atraso brasileiro. Ele prometia realizar obras de "cinqüenta anos em cinco" para acelerar o nosso progresso. Um dos seus atos mais relevantes foi a transferência da capital, do Rio de Janeiro para o interior do país, em Brasília, cidade planejada e construída durante seu governo.
Sucedendo Juscelino, assumiu a presidência Jânio Quadros, em 1961. Contudo, depois de poucos meses de uma administração medíocre, ele renunciou, por motivos até hoje obscuros. O vice-presidente João Goulart não contava com o apoio das Forças Armadas. Os militares acreditavam que Goulart entregaria o país ao comunismo do qual era simpatizante e tentaram impedir-lhe a posse. Firmou-se um acordo político que criou o Parlamentarismo. Este foi desfeito pelo presidente, depois de um plebiscito que indicou a insatisfação popular com o novo modelo. As Forças Armadas passaram a arquitetar a deposição do presidente, o que de fato aconteceu com o golpe de estado de 1964.
Durante a década de 50, a arte brasileira se beneficiou do estado de relativa democracia vivido pelo país. Pesquisas formais indicavam caminhos novos para todos os setores artísticos. A literatura, a música, a pintura, a arquitetura, o cinema, o teatro, passavam por momento de renovação estilística. Essa renovação incluía a vertente política da arte. A União Nacional dos Estudantes (UNE) criou os Centros Populares de Cultura (CPC), que buscavam formas de comunicação artística com as massas, realizando apresentações de música e teatro em portas de fábricas e sedes de ligas camponesas.
Em literatura, surgiu o período denominado de terceiro tempo do Modernismo. Ele se caracterizou por uma retomada das preocupações formais que tinham marcado a primeira geração modernista. A palavra ganhou importância, assumida como centro da expressão estética. A reflexão em torno da arte (metalinguagem) alcançou níveis de elaboração bastante altos, em virtude do clima de discussão que se instalava no país.
O experimentalismo, isto é, a busca de novas formas de elaboração da linguagem literária, colocou a literatura brasileira em um patamar bastante semelhante ao de outras nações do mundo. Na poesia, a chamada "geração de 45" (grupo de poetas do terceiro tempo) tentou aliar os avanços modernistas com uma tonalidade clássica.
A preocupação com os destinos da sociedade perdeu o tom localista e regional que tinha tido nas décadas de 30 e 40. A iminência de um conflito nuclear que poderia dizimar a espécie humana fez com que todos passassem a se preocupar com a humanidade como um todo. O pessimismo dominou as concepções filosóficas do período. A ficção se voltava cada vez mais para o interior do ser humano, tentando encontrar ali a chave para a compreensão dos conflitos sociais. João Cabral de Melo Neto foi o principal representante da geração 45. Como outros poetas dessa época, apresentava uma grande preocupação com a construção do poema e com sua forma visual, insistindo na composição de métrica regular. No entanto, ele se destacou pela qualidade de sua poesia. Utilizando-se de uma expressão sintética, fugindo a qualquer tipo de derramamento ou sentimentalidade, João Cabral conseguiu à palavra poética a contundência da pedra. No poema dramático Morte e vida severina, a dureza da expressão corresponde formalmente às dificuldades e desalentos da história do retirante que aperte em direção ao litoral em busca de vida, e só encontra morte pelo caminho. O subtítulo do poema, auto de natal pernambucano, confirma a esperança do título no advento de uma nova vida, que represente a redenção do povo nordestino.
Fernando Marcílio
Morte e Vida Severina - Enredo
Publicada pela primeira vez em 1954 e encenada com grande sucesso em inúmeros palcos do Brasil e de outros países, esta obra, de João Cabral de Melo Neto, estrutura-se na forma de auto, peça de origem medieval e popular.
Além da grande sonoridade provocada pela predominância de versos em redondilha maior (verso de 7 sílabas poéticas, também pertencente à tradição medieval) de rimas sem um esquema regular mas constantes, de repetições de palavras e de versos inteiros. Morte e vida severina prende a atenção do leitor-ouvinte por combinar simplicidade e concentração, fortes imagens visuais e auditivas com uma linguagem muito próxima do registro oral.
Nela, o autor tematiza o itinerário do retirante nordestino, que parte do sertão paraibano em direção ao litoral, em busca de sobrevivência, devido à seca e às precárias se não insustentáveis condições de vida, para a esmagadora maioria da população.
A obra possui 18 trechos ao longo dos quais Severino, o retirante, primeiro apresenta-se ao leitor para em seguida ir relatando, com o auxílio de outras vozes, outros personagens encontrados na travessia, as etapas de que ela se compõe até chegar no Recife, onde o rio se encontra com o mar... Ora dialogando individualmente com ele, ora funcionando como um coro, tais vozes dão mobilidade aos trechos e ressoam de modo a contagiar os que seguem as pegadas do protagonista, explicitadas por títulos que resumem os seus movimentos principais, de forma semelhante às titulações dos capítulos dos romances medievais.
Para facilitar o entendimento do enredo de Morte e vida severina, vamos dividi-lo em duas partes: a primeira compreendendo dos trechos 1 ao 9, e que consiste na viagem da Paraíba ao Recife; e a segunda compreendendo dos trechos 10 ao 18, nos quais aparecem as experiências vividas pelo retirante na cidade grande.
1ª Parte - Do interior da Paraíba ao Recife: a busca da vida x a sucessão de mortes.
Antes de narrar a história de sua vida, Severino, cujo nome de próprio se tornou comum (elemento que estudaremos na seção Personagens), identifica-se ao leitor no trecho 1 - "O retirante explica ao leitor quem é e a que vai" - como personificação de um tipo humano e brasileiro: o oprimido socialmente, o retirante cuja vida é determinada pelas desigualdades econômicas que se mantêm irreparáveis.
Mas para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra
Nas etapas desta emigração o que vemos através de seus sonhos, é sempre a morte interrompendo a vida.
No 2º trecho, por exemplo, intitulado Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não', há um diálogo entre o Severino-retirante e os carregadores daquele corpo, o corpo do Severino-lavrador.
Aqui se alternam quartetos de versos com 7 e 4 sílabas poéticas, e se repetem no 2º verso de cada quarteto as expressões "irmãos das almas" (quando a fala é de Severino) e "irmão das almas" (quando a fala é dos carregadores do corpo), formando uma espécie de refrão, de ladainha, de coro, que fortalecem a dramaticidade e o lirismo de muitas partes do texto.
O diálogo nos informa que Severino-lavrador morreu "de morte matada", assassinado à bala, numa emboscada, por "Ter uns hectares de terra.../ de pedra e areia lavada / que cultivava". Às perguntas de Severino-retirante sobre quem o emboscou e que roças "ele podia plantar / na pedra avara", e também sobre o por que o fizeram as respostas são: "- Ali é difícil dizer / irmão das almas. / Sempre há uma bala voando / desocupada", "- Nos magros lábios de areia, irmão das almas, dos intervalos das pedras, / plantava palha" e "- Queria mais espalhar-se / irmão das almas, / queria voar mais livre / essa ave-bala". Vemos assim, as imagens da "ave-bala" e dos "magro lábios de areia", tanto a impunidade do crime quanto a estreiteza do pedaço de terra que o deflagra:
"- Tinha somente dez quadras, / irmão das almas, / todas nos ombros da serra, "nenhuma várzea"...
Severino retirante se oferece para ajudar a levar o morto, o que permite que m dos condutores possa voltar para casa. Uma fala final deste trecho exemplifica a ironia com que é retratada a morte, de forma crescente à medida que aumenta o número de cadáveres: "- Mais sorte tem o defunto, / irmãos das almas, / pois já não fará na volta / a caminhada".
No 3º trecho - O retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou com o verão - as imagens das vilas e cidades por onde Severino-retirante vai passar com um rosário, e da estrada como uma linha, enriquecem-se com a imagem do Capibaribe. O rio-guia, identificado como o homem do nordeste, tem uma sina a cumprir, mas no verão a seca o interrompe, e ele se transforma em "pernas que não caminham...
Entretanto, o som de uma categoria orienta o viajante, que encontra, ao segui-la, o segundo defunto - trecho 4; Na casa a que o retirante chega estão cantando as excelências para um defunto, enquanto um homem, ao lado de fora, vai parodiando as palavras dos cantadores. Nos trechos 5 e 6, e nos trechos 7 e 8, mais duas interrupções ocorrem na travessia do retirante. A primeira (referente aos trechos 5 - Cansado da viagem, o retirante pensa em interrompê-la por uns instantes e procurar trabalho onde se encontra e 6 - Dirige-se à mulher na janela que depois descobre tratar-se de quem se saberá) decorre do cansaço de Severino. Perante a sucessão de mortes que testemunha vontade de, como o rio, "interromper sua linha", permanecer onde está. Vê, então, uma mulher na janela que lhe parece "remediada" e resolve perguntar-lhe por trabalho. O diálogo entre o protagonista e a mulher faz com que primeiro, respondendo às perguntas dela, enumere os ofícios que já teve (lavrador, vaqueiro, moedor de cana em engenhos, "suportar o sol" e, "havendo ou não (trabalho) trabalhar"), enquanto a mulher indaga se sabe "benditos rezar, cantar excelências, defuntos encomendar..." Trata-se de uma encomendadora de mortos, que "se soubesse rezar ou mesmo cantar" lhe proporia sociedade, "que a freguesia bem dá".
O diálogo então se inverte, Severino quer saber "como a senhora, comadre, pode manter seu lar" e ela, rezadora titular de toda a região, responde-lhe: "- Como aqui a morte é tanta, / só é possível trabalhar / nessas profissões que fazem / da morte ofício ou bazar'. Enumera por sua vez os "profissionais da morte" - farmacêuticos, coveiros, "doutor de anel no anular"- denominado-os "retirantes às avessas", isto é, pessoas que sobem do mar para o sertão e cultivam os "roçados da morte", os quais ironicamente "nem é preciso esperar / pela colheita: recebe-se na hora mesma de semear.."
Nos trechos 7 - o retirante chega à zona da mata, que o faz pensar, outra vez, em interromper a viagem e 8 - Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levam ao cemitério - a chegada a uma terra "mais fácil, doce e rica" enche de esperanças o coração do retirante.
Mas, em vez de gente ele vê apenas, numa várzea, um bangüê velho em ruína, o que o leva a conclusões apressadas: "Por onde andará a gente / que tantas canas cultiva? / Feriando: que nesta terra / tão fácil, tão doce e rica, / não é preciso trabalhar / todas as horas do dia, / os dias todos do mês, / os meses todos da vida..."
Tais conclusões são desmentidas no trecho 8, um dos mais conhecidos do texto, no qual o coro dos amigos do morto é uma forma de condenar, agora mais concentradamente, o que já vinha sendo denunciado desde o início; a desigualdade social, o extremo desamparo dos pobres perante o latifúndio, o coronelismo, as grandes oligarquias.
Os versos dirigem-se ao morto, cuja cova "é a parte que te cabe / neste latifúndio, é a terra que querias / ver dividida", é onde "estarás mais ancho / que estavas no mundo", é onde "mais que no mundo / te sentirás largo..."
Assim, o trabalho exercido com justiça e dignidade associa-se com a terra de que, "além de senhor / será homem de eito e trator (...). Serás semente, adubo, colheita" numa terra que "Também te abriga e te veste: / embora com o brim do nordeste".
Esta enumeração de imagens acaba por identificar o homem morto com a terra onde deveria trabalhar, de onde precisaria tirar o seu sustento, mas que agora... "- Se abre o caixão e te abriga, / lençol que não tiveste em vida; - Se abre o chão e te fecha, / dando-te agora cama e coberta; / - Se abre o chão e te envolve / como mulher com quem se dorme".
No trecho 9 - o retirante resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife - novamente Severino fala com o leitor, por um lado afirmando não ter sentido diferença "entre o Agreste e a Caatinga, e entre a Caatinga e aqui a Mata" e, por outro, lado identificando-se mais com o rio ("vive a fugir de remansos, / a que a paisagem o convida, / com medo de se deter, / grande que seja a fadiga"), chegar logo "ao fim dessa ladainha", ao Recife, "derradeira ave-maria do rosário, derradeira invocação da ladainha, / Recife, onde o rio some / e essa minha viagem se finda..."
2ª Parte
O retirante na cidade grande: a sucessão de mortes x a explosão da vida.
A partir do trecho 10 - Chegando ao Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé de um muro alto e caiado e ouve, sem ser notado, a conversa de dois coveiros - Severino inicia seu trabalho pela cidade grande.
Dois coveiros - um do bairro de Casa Amarela e outro do bairro de Santo Amaro - conversam, o primeiro querendo deixar seu cemitério, cujo vaivém de mortos compara com " paradas de ônibus, com filas de mais de cem", e o segundo comparando o setor do cemitério onde trabalha com "a estação de trens: diversas vezes por dia chega o comboio de alguém".
Enquanto isso, afirma o coveiro de Santo Amaro, "As avenidas do centro / onde se enterram os ricos, / são como porto do mar: / não é ali muito serviço: no máximo um transatlântico / chega ali cada dia / com muita pompa, protocolo / e ainda mais cenografia". A estes bairros (dentro do cemitério) de usineiros, políticos, banqueiros, industriais, etc, contrapõem-se, continua o coveiro de Santo Amaro, os bairros dos funcionários, dos jornalistas, dos escritores, dos artistas, dos bancários, etc,...
O coveiro de Casa Amarela reconhece um bairro dessa gente no cemitério do qual quer sair; "Raras as letras douradas, / raras também as gorjetas", e conta ao amigo que conseguiu do administrador mudar de bairro, não de cemitério.
Então, o interlocutor comenta: "Passas para o dos operários, / deixas o dos pobres vários; / melhor, não são tão contagiosos, / e são muito menos numerosos".
A conversa prossegue com ambos os coveiros falando dos indigentes, "da gente retirante / que vem do sertão tão longe... Não podem continuar, / pois tem pela frente o mar. / Não tem onde trabalhar / e muito menos onde morar... essa gente do sertão / que desce para o litoral, sem razão, fica vivendo no meio da lama, / comendo os siris que apanha; / Pois, bem: quando sua morte chega / temos que enterrá-los em terra seca..."e com a sugestão de que morressem no rio, facilitando o trabalho deles. Enfim, a conclusão a que chegam é de que o erro dos sertanejos é virem seguindo "seu próprio enterro".
Severino, após ouvir tais palavras, aprende que "nessa viagem que eu fazia, / sem saber desde o Sertão, / meu próprio enterro eu seguia..." e encontra como solução apressar a própria morte, como o coveiro a descrevera / jogar-se no Capibaribe "que rio, aqui no Recife, / não seca, vai toda vida..."(trecho 11 - o retirante aproxima-se de um dos cais do Capibaribe).
Do trecho 12 ao 13 ocorre o encontro de Severino com Seu José, um mestre carpina que defende a vida, "mesmo que em retalhos, a vida de cada dia, que cada dia deve ser conquistada". Após o trecho 12 (Aproxima-se do retirante um morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio) há a notícia do nascimento de uma criança, filha do carpinteiro (trecho 13 - Uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o que se verá), e, no trecho 14 (Aparecem e se aproximam da casa do homem vizinhos, amigos, duas ciganas, etc), 15 (Começam a chegar pessoas trazendo presentes para o recém nascido), 16 (Falam as duas ciganas que tinham aparecido com os vizinhos) e 17 (Falam os vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc) a celebração do evento transcorre.
Os presentes humildes dos amigos, os prognósticos das ciganas vindas dos "Egitos" (a primeira vendo a criança como um futuro pescador e a segunda como um operário, alguém de condição e de moradia melhores), as falas dos presentes, reconhecendo que "o menino magro / de muito peso não é, mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher" e poeticamente o descrevendo ("é belo como o coqueiro / que vence a areia marinha...", "é tão belo como um sim / numa sala negativa",... "belo porque é uma porta / abrindo-se em mais saídas...", "belo porque corrompe / com sangue novo de anemia..." criam atmosfera do trecho 18, que finaliza o poema.
Nele - O carpina fala com o retirante que esteve fora, sem tomar parte em nada"- o pai do menino recém-nascido mostra o filho como fato-exemplo de que a vida deve ser celebrada ela própria, que a sua explosão - que assemelha ao nascimento de mais um pobre o renascimento da existência - pode inverter a seqüência de sombras em que mergulhara o retirante, e com ele o leitor, e substituí-la por outra resposta: "E não há melhor resposta / que o espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio, / que também se chama vida, / ver fábrica que ela mesma, / teimosamente, se fabrica, / vê-la brotar como há pouco / em nova vida explodida; / mesmo quando é assim pequena / a explosão, como a ocorrida; / mesmo quando é a explosão / como a de há pouco, franzina; / mesmo quando é a explosão / de uma vida severina".
Morte e Vida Severina - Personagens
Além do mestre carpinteiro que representa a possibilidade de esperança na vida através da própria vida se fazendo e refazendo, o protagonista da obra, seu personagem modelar de quem o mestre constitui a "outra face" é o retirante personificado por Severino. Vamos, então, analisá-lo.
No primeiro trecho, ele se apresenta aos leitores - pessoas letradas e pertencentes ao mundo urbano - chamando-as de "Vossa Senhorias" e inicialmente procurando distinguir-se enquanto indivíduo.
Para fazê-lo, detalha ao máximo o seu nome - "é o Severino / da Maria do Zacarias, / lá da Serra da Costela, / limites da Paraíba". Entretanto, isso ainda diz pouco: "Se ao menos mais cinco havia / com o nome de Severino / filhos de tantas Marias / Mulheres de outros tantos, / já finados, Zacarias, / vivendo na mesma Serra / magra e ossuda em que eu vivia".
Neste trecho que inicia o auto, um de seus eixos temáticos fundamentais pode ser notado com facilidade: o anonimato de uma gente cuja vida só tem a morte como horizonte - "E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, / mesma morte severina, / que é a morte de quem se morre / de velhice antes dos trinta, / de emboscada antes dos vinte, / de fome um pouco por dia / de fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em qualquer idade / e até gente não nascida".
Repare que a pluralização do nome próprio Severino transforma-o em nome comum, nome que simboliza a violência e a miséria de vidas tão iguais quanto as mortes... "esta morte severina".
Agora, a palavra torna-se um adjetivo que caracteriza a precariedade da existência dos seres oprimidos pela seca e pelo conservadorismo de um sistema sócio-econômico-político opressor, de estrutura anacronicamente reacionária (os severinos como descendentes do Coronel Zacarias, o "mais antigo senhor desta sesmaria", e de mães chamadas Marias...)
A sina, o destino, a fatalidade de "abrandar pedras", de "tentar despertar terra sempre mais extinta" constituiu outro elemento temático que persiste ao longo de todo o texto, cujo conteúdo de denúncia social fica nítido no enredo, na caraterização do personagem principal e modelar do livro, Severino, e, como veremos, no tempos/espaço e na linguagem da obra.
Morte e Vida Severina - Tempo / espaço
Os aspectos temporais espaciais de Morte e vida severina entrelaçam-se a características da obra estudadas em seu enredo e através de seu protagonista, Severino. Enquanto o tempo é indeterminado cronologicamente, dando-nos a situação da seca como único marcador, que parece eternizá-lo, o espaço possui um movimento de deslocamento mais simbólico que real, embora aconteça de fato.
Isto porque a travessia do retirante do Agreste para a Caatinga, da Caatinga para a Zona da Mata, da Zona da Mata para o Recife, não apenas não muda as suas perspectivas de vida, mas, ao contrário, apenas intensifica o acúmulo de mortes que o leva a pensar em jogar-se no rio e apressar a própria morte.
Assim, tanto tempo quanto o espaço intensificam o caráter de denúncia social do texto, o qual , pela simbologia da vida representada via nascimento de uma criança, e via significado desse nascimento de acordo com as palavras do mestre carpina, conjuga a denúncia de que reveste com um lirismo que não chega nem pretende chegar a seu redentor, reconfortante, mas que colore de tons substantivamente poéticos a possibilidade de esperanças presente em Morte e vida severina.
Morte e Vida Severina - Linguagem
Conhecido como "engenheiro da palavra" por sua poesia precisa, substantiva, elíptica, mais plástica que musical, João Cabral de Melo Neto surpreendeu alguns críticos ao conseguir conjugar tais características, que mantêm na obra que lemos, com outros recursos que o tornam mais "legível" e conseqüentemente menos "hermético". Tais recursos estão vivos na linguagem concisa mas fluída e permeada de expressões e musicalidade popular de Morte e vida severina, na sedução de sua leitura pelos fortes traços orais, pelas rimas e repetições que não enfraquecem, mas, ao contrário, intensificam a tensão dramática, e principalmente no lirismo que soletra a vida e a celebra, ao mesmo tempo em que denuncia de forma implacável os fatores que a impedem de expandir-se: a seca e os arbítrios, os desmandos, os responsáveis por ela e por suas conseqüências.
Vamos terminar este trabalho com a opinião de um estudioso e mais um fragmento do texto, para lermos, relermos e reconhecermos sua intensidade enquanto texto literário e enquanto peça teatral.
“A visão plástica (...) é tão predominante em João Cabral de Melo Neto que acarreta o quase amortecimento do lado musical (...). Dessa forma, sua poesia pode parecer - ante uma tradição que tem timbrado em requintar o lado musical (e/ou rítmico e/ou fônico) - algumas vezes "dura" aos menos avisados ou mesmo aos pseudo-avisados (...). E não estranhará que tenha sido a consciência disso que o tenha levado, quando quer obter efeitos rítmicos mais definidos, aos metros tradicionais da redondilha e do romance. Mas a repulsa aos apoios fonéticos não necessários à sua visão poética é tal, que raríssimos são os casos de rimas, salvo as toantes, e estas são freqüentes sobretudo como "molde" ou "fôrma" para a obtenção de uma certa fixidez poemática (...). Chega à situação de um sábio que esgotou toda a teoria neutra de sua ciência, viu que por sua pretensa neutralidade era uma ciência a serviço, viu mais - que a serviço de uma causa que não era a da ciência mesma e se perguntou qual seria, pois, aquela ciência sincera, que se pudesse pôr a serviço do homem...” Antônio Houaiss, obra citada
- Severino, retirante,
deixa agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponta e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
(Trecho 18 - o carpina fala o retirante que esteve de fora sem tomar parte me nada).
*Emília Amaral
Material do COC – CD-ROOM

Resumo 2 - Morte e vida Severina - João Cabral de Melo Neto

A dura trajetória do imigrante nordestino

Para entender Morte e Vida Severina (1954-5) é interessante prestar atenção em seu título e subtítulo, “Auto de Natal Pernambucano”. O primeiro termo que pode ser analisado é “auto”, que liga a obra ao teatro da Idade Média, principalmente o ibérico, não só pelo uso de redondilhas e da rima espanhola (que se estabelece apenas com a última vogal tônica), mas também pela fusão de elementos contemporâneos e medievais, esquema que já fora utilizado em Gil Vicente, principalmente no Auto da Barca do Inferno (1517).
A próxima expressão é “de Natal”. Poderia reforçar as características do termo anterior, anunciando uma temática religiosa na obra. No entanto, João Cabral não teve preocupações religiosas aqui. A estrutura serve apenas para veicular sua visão crítica do mundo, num esquema semelhante aos autos de Gil Vicente, que não eram essencialmente preocupados com religião. Na verdade, a expressão em questão está mais ligada ao seu final, em que há o nascimento de uma criança.
O adjetivo pátrio “Pernambucano” põe em foco o fato de o ambiente em que se passa a história, além dos problemas, ser desse estado. Além disso, muito da obra foi retirado do folclore pernambucano. Não se deve esquecer que João Cabral, ao receber o pedido de Maria Clara Machado para escrever uma peça a ser encenada no Natal, sentiu dificuldade na tarefa – era virgem nesse gênero – que só foi superada depois de estudar a cultura popular de seus conterrâneos.
Todos esses elementos vêm da análise do subtítulo. O título, por sua vez, oferece mais aspectos importantes. Primeiro, o seu adjetivo, “Severina”, que vem de um substantivo próprio. João Cabral inova sobre a língua ao fazer o caminho inverso. É comum adjetivos virarem nomes, como o próprio “Severino”, que vem de “severo” (difícil, árduo, rígido). Se se juntar a idéia de que Severino e Severina são nomes muito comuns no Nordeste, pode-se entender que se está falando de uma vida (ou morte) tipicamente nordestina, porque é difícil, rígida, severa.
No entanto, o aspecto mais interessante é a inversão que se estabelece entre os substantivos “morte” e “vida”. O normal seria a vida vir primeiro. Mas a mudança de posição que se estabelece no título índica o estado crítico em que se encontra o Nordeste, com a morte vindo em primeiro lugar, ou seja, com presença mais marcante, intensa. Não é à toa que, na distribuição das 18 cenas da peça, 12 foram dedicadas à morte, o que cria uma proporção de 2:1 entre morte e vida. A morte é o dobro da vida.
E é para fugir a essa dificuldade que Severino se torna retirante, conforme anuncia na primeira cena, em que se apresenta de forma bastante curiosa: quanto mais tenta especificar sua identidade, mais impreciso se torna. O resultado é que se torna extremamente genérico – é um personagem tipo, a representar o retirante nordestino.
Outro aspecto interessante na apresentação é a caracterização que se faz da vida Severina em 29 versos, uma referência precisa, matemática da expectativa de vida do sertanejo na época do poema: 29 anos. A exigüidade da existência desse povo foi um dos principais elementos que inspirou João Cabral a escrever tal obra.
Ainda assim, Severino encontra pelo caminho morte, já a partir da segunda cena. Em busca de melhores condições de vida, parte, pois, para Recife, utilizando o Rio Capibaribe como guia (assim como a estrela tinha sido para os três reis magos). No caminho, depara-se com o enterro de um Severino lavrador. A informação que lhe é dada de como se deu tal morte concilia a lucidez crítica e o talento poético. Comunicam que o lavrador foi morto porque uma ave-bala o pegou. Há aqui a menção aos conflitos de terra. Existe, também, um toque surrealista ao se mencionar o algoz como “ave-bala” e pouco depois de “pássara”. Além disso, esse trecho, “Ó Irmão das Almas”, é inspirado num poema espanhol que o autor por certo deve ter conhecido quando exerceu serviço diplomático naquele país.
O tema da morte é repetido, na terceira cena, na imagem do rio que secou. Severino, assim, preocupa-se, pois perde o seu guia. No entanto, sua atenção é distraída por uma cantoria. É o gancho para a quarta cena, em que há carpideiras – mulheres que ganham a vida chorando por quem nem conhecem – e outras pessoas “cantando excelências” para um defunto. O esquema dessa cena é também retirado de um poema da literatura espanhola.
Não se deve esquecer que a Cena 4 tem uma estrutura que imita um espelho. O discurso que é feito para o defunto dentro da casa, com recomendações até sobre o que fazer, já que se encaminha para o reino dos mortos, é repetido por um homem que fica à porta no momento exato em que Severino passa. As “excelências” funcionariam, portanto, também como uma profecia ao protagonista.
Cansado de só encontrar morte pelo caminho, Severino, no monólogo que é a Cena 5, pensa em parar sua viagem e conseguir trabalho. É o instante da célebre Cena 6, quando dialoga com uma mulher na janela. Aqui novamente ocorre uma inspiração retirada da literatura espanhola que se misturará ao contexto pernambucano. Marcante nessa cena é a diferença entre oferta e procura. Severino sabe tirar vida da terra, mas naquela região seca não há o que tirar. O único meio de vida, ironicamente, seria trabalhar nos roçados da morte, com faz a mulher na janela, que é rezadora.
Continua, pois, sua viagem, quando alcança a Zona da Mata (Cena 7), em que dominam o verde e a umidade das plantações. Severino pensa em ficar, pois imagina que num local onde não exista seca não exista também vida severina. Infelizmente, não percebeu que o problema não é a seca, mas mais precisamente a estrutura latifundiária.
Sua fantasia desmoronou-se na antológica Cena 8, quando presencia o enterro de um trabalhador de eito (roça), todo vazado numa amargura cortante e extremamente irônica, típica de quem perdeu tudo. Nesse trecho há uma alusão, também irônica, à reforma agrária: a cova é a terra que aquele lavrador tanto queria ver dividida.
Frustrado, apressa-se em direção de Recife (Cena 9), que alcança, descansando junto ao muro branco de um cemitério (mais uma imagem da morte!), quando ouve a conversa de dois coveiros (Cena 10), toda num andamento que imita a prosa. Nesse instante é que ouve uma realidade dolorosa: a de que todos os retirantes vinham acompanhando o próprio enterro, ou seja, estavam apenas deixando de morrer no sertão para morrer no litoral. Em outras palavras: não melhorariam a qualidade de vida.
Desestimulado, o protagonista chega-se à margem do rio, um indício de que está a fim de apressar o próprio enterro, ou seja, pôr término à sua existência (Cena 11). É nessa hora que encontra o Mestre Carpina (carpinteiro) José (personagem que faz lembrar o pai de Jesus). Faz-lhe a famosa pergunta: não seria melhor saltar fora da ponte e da vida?
Antes que o mestre responda, começam as seis cenas que são chamadas de Presépio, pois celebram o nascimento divino, anunciado por uma mulher que informa que o filho do carpina saltou para dentro da vida. Coincidência ou não, é uma resposta à pergunta de Severino. A primeira cena pode ser chamada “Anunciação”, pois é o momento em que uma mulher comunica ao mestre carpina o nascimento do menino. É uma cena calcada no folclore pernambucano.
A cena seguinte é a em que se deixa claro o nascimento dessa criança como divino, pois a natureza parece ter-se preparado para recebê-la, já que a maré havia espalhado sargaço, uma alga de caráter ácido e que serviu para desinfetar o mangue. Além disso, o vento havia levado para longe o cheiro ruim e a água, antes barrenta, ficou cristalina, refletindo as estrelas.
Em seguida, há a oferenda de presentes ao recém nascido, numa referência aos presentes dos reis magos. A diferença é que os vizinhos dão não tem riqueza material: jornal, frutas, elementos tirados da pobreza.
A Cena 4 apresenta duas personagens típicas dos autos medievais, que são as duas ciganas. No entanto, ao invés de uma fazer uma previsão negativa e a outra positiva, em Morte e Vida Severina ambas fazem previsões negativas, como o menino aprender a andar e a brincar com os animais, ficar sujo de lama ou de graxa e se mudar de um mocambo para o outro.
A penúltima cena introduz a temática da beleza do menino, que suplanta seu caráter raquítico e doentio, pois se baseia no fato de dentro dele bater a máquina da vida. É alimento mais que suficiente para o encerramento da peça, em que volta à ação o mestre carpina, agora com a função de responder a pergunta. Seu raciocínio é o de que a própria vida, por meio da criança, havia respondido com sua capacidade de suplantar todas as dificuldades.
Não se deve esquecer, ainda assim, que o final do “Auto de Natal Pernambucano” não é simplista como seus modelos medievais. Pode ser entendido como ambíguo, na medida em que tem um aspecto positivo, que é a capacidade de resistência da vida, mas que também se mostra negativo, na medida em que essa vida é severina. Pode-se também entender o desfecho como uma mensagem de esperança, mas com o pé no chão, ou seja, sem se esquecer das dificuldades desse mundo.

domingo, 13 de abril de 2008

João Cabral de Melo Neto - Morte Vida Severina

João Cabral de Melo Neto

Morte Vida Severina



O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR
QUEM É E A QUE VAI


— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.



ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO
UM DEFUNTO NUMA REDE,
AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS!
IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU
QUEM MATEI NÃO!"

— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.

— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.

— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?

— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.

— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?

— Onde a caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.

— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?

— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.

— E o que guardava a emboscada,
irmão das almas
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?

— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mas garantido é de bala,
mais longe vara.

— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?

— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.

— E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?

— Ter um hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.

— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas
que podia ele plantar
na pedra avara?

— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.

— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?

— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.

— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?

— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.

— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?

— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.

— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente do chumbo
que tem guardada?

— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.

— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.

— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.

— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.

— Vou eu que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.

— Mais sorte tem o defunto
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.

— Toritama não cai longe,
irmãos das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.

— Partamos enquanto é noite
irmãos das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.

O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR POR SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERÃO


—— Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha
entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho que saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?


NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,
VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS CANTADORES


—— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e o demônios te atalharem
perguntando o que é que levas..

—— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.

—— Finado Severino,
etc...

—— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.

—— Finado Severino,
etc...

—— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.

—— Uma excelência
dizendo que a hora é hora.

—— Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.

—— Duas excelências...

—— ... dizendo é a hora da plantação.

—— Ajunta os carreadores...

—— ... que a terra vai colher a mão.



CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA
INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES
E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.


—— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ



—— Muito bom dia senhora,
que nessa janela está
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?

—— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?

—— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.

—— Isso aqui de nada adianta,
poucos existe o que lavrar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?

—— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.

—— Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar
diga-me ainda, compadre,
que mais fazias por lá?

—— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.

—— Esses roçados o banco
já não quer financiar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?

—— Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.

—— Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá
diga-me ainda, compadre
que mais fazia por lá?

—— Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavras
pela seca faca solar.

—— Isto aqui não é Vitória

nem é Glória do Goitá
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?

—— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.

—— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, Oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?

—— Em qualquer das cinco tachas
de um bangüê sei cozinhar
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.

—— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?

—— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.

—— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.

—— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.

—— Essa vida por aqui
é coisa familiar
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?

—— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.

—— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.

—— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?

—— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:

como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.

—— E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?

—— é, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.

—— E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?

—— De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.

—— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?

—— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar
não se precisa de limpa,
as estiagens e as pragas
fazemos mais prosperar
e dão lucro imediato
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.



O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA
MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ,
EM INTERROMPER A VIAGEM.


—— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm água vitalícia.
Cacimbas por todo lado
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.

Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina
somente ali à distância
aquele bueiro de usina
somente naquela várzea
um bangüê velho em ruína.

Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.

Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina
e aquele cemitério ali,
branco de verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.



ASSISTE AO ENTERRO DE UM
TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE
DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O
LEVARAM AO CEMITÉRIO


—— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

—— é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe

neste latifúndio.

—— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

—— é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.

—— é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.

—— é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

—— Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.

—— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.

—— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.

—— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.

—— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.

—— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.

—— Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.

—— Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.

—— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.

—— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.

—— Tua roupa melhor

será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.

—— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).

—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)

—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).

—— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).

—— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)

—— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).


—— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.

—— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.

—— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.

—— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.

—— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.

—— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

—— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.

—— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.

—— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.

—— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

—— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.

—— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.

—— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,

—— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.


—— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.

—— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.

—— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.

—— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.

—— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.

—— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme.


O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS
PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE

—— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.

Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre com
a mesma chama mortiça.

Agora é que compreendo
por que em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter,
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.



CHEGANDO AO RECIFE O
RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR
AO PÉ DE UM MURO ALTO E
CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO,
A CONVERSA DE DOIS COVEIROS


—— O dia hoje está difícil
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
—— pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.

Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.

—— é que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.

Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.

—— Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não para o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.

—— Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos bangunlezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros)
bairro também dos industriais,
dos membros das
associações patronais
e dos que foram mais horizontais

nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.

—— Só pedi que me mandasse
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.

—— Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se libertaram jamais.

—— Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.

—— Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa
onde se exige quepe
e farda engomada e limpa.

—— Mas não foi pelas gorjetas, não,
que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.

—— E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?

—— Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.

—— E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?

—— No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.

—— E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?

—— Passo para o dos industriários,
que também é o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.

—— Passas para o dos operário,
deixas o dos pobres vários
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.

—— é, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.

—— é a gente sem instituto,
gente de braços devolutos
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.

—— é a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.

—— é a gente retirante
que vem do Sertão de longe.

—— Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.

—— E que então, ao chegar,
não tem mais o que esperar.

—— Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.

—— Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.

—— E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.

—— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.

—— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.

—— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.

—— E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.

—— Mas o que se vê não é isso:

é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia
morre gente que nem vivia.

—— E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitério esperando.

—— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.


O RETIRANTE APROXIMA-SE DE
UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

—— Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.

E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).



APROXIMA-SE DO RETIRANTE O
MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS
QUE EXISTEM ENTRE O CAIS
E A ÁGUA DO RIO

—— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?

—— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.

—— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.

—— Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.

—— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?

—— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.

—— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?

—— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.

—— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?

—— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.

—— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?

—— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?

—— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.

—— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?

—— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.

—— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?


UMA MULHER, DA PORTA DE
ONDE SAIU O HOMEM,
ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ


—— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
e estais aí conversando
pois sabeis que ele é nascido.



APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO
HOMEM VIZINHOS,
AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC


—— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.

—— Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.

—— E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.

—— E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.

—— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.

—— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.

—— E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.

—— E este rio de água, cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.



COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS
TRAZENDO PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO
PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO


—— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.

—— Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.

—— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.

—— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.

—— Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta sorrindo e de estalo.

—— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.

—— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.

—— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.

—— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.

—— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.

—— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.

—— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.

—— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.

—— Siris apanhados no lamaçal
que já no avesso da rua Imperial.

—— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.

—— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.



FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM
APARECIDO COM OS VIZINHOS


—— Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.

—— Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.



FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE
VIERAM COM PRESENTES, ETC


—— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.

—— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.

—— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

—— é tão belo como a soca
que o canavial multiplica.

—— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.

—— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

—— é tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

—— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

—— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.

—— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

—— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

—— E belo porque o novo
todo o velho contagia.

—— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.

—— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.

—— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.



O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE
ESTEVE DE FORA,
SEM TOMAR PARTE DE NADA


—— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.